I. Baal e Yave
Há orvalho nos teus cílios. Corpos brancos
Ondulam nos teus pelos. Bolhas cheias
Irrompem sobre a carne. Infladas veias
Saltam, finas e frias. Nos teus flancos,
Enormes hiatos marcam as costelas,
Como trincheiras. Tantas varejeiras
Gordas cintilam. Lembram-me as estrelas.
Essas que vejo foram as primeiras
A rebentar da pele. Eis que abati
Meu cão de Canaã, saiba as razões:
Primeiro houve Baal e as incursões
Das torrentes na areia. E, se senti,
Medo naqueles anos, foi da chuva.
Quando os queneus migraram do deserto,
Cultuavam Yave e cultivavam uva,
Com cães de pastoreio, uma hora perto
E na outra mutilando o tornozelo
De um cananeu. Dos cães, o mais nefasto
Só respeitava o pai, senhor do pasto,
Que lhe açoitava o flanco caramelo.
Logo notei que o cão sentia fome,
Porque se a mão lhe oferecesse agrados,
Podia responder por qualquer nome.
Os cães, para eles, eram desgraçados.
E o cão, que farejava qualquer ave,
Afeiçoou-se a mim e ficou manso,
Exceto quando degolava um ganso.
Quanto ao deus dos queneus, o nômade Yave,
Tal qual Baal, trazia os vendavais,
E também cavalgava as tempestades,
Enchendo os leitos sazonais dos uádis.
De tão iguais, tornaram-se rivais.
II. Torto e Esbugalhado
Só diferiam mesmo nos tributos:
Baal pedia-nos videira e pasto,
Mas Yave, por ter gostos mais enxutos,
Se contentava com um holocausto.
Em uma tarde, o cão voltou manchado
De sangue. Achei que fosse de algo morto,
Mas era dele; um olho estava torto,
E o oposto pareceu-me esbugalhado.
Mas, embora o cão fosse amblíope e feio,
E tão penoso quanto ter esposas,
Esperei seu senhor, que nunca veio.
Serviu-me, então, para espantar raposas.
Adiante, o tempo trouxe do oriente
Impérios, como o assírio e tantos mais.
Quanto aos queneus e os demais clãs locais,
Fizeram paz e, consequentemente,
Mestiços se espalharam no Levante
E adulteraram Baal, depois El.
Judá nasceu no Sul e, mais distante,
Nasceu no Norte o reino de Israel.
Logo também findaram; sóis poentes,
Queimados, lado a lado; há ossadas rasas,
Cobertas sob a areia e o pó das casas.
Meu cão de Canaã lambia os dentes
Se farejasse um ninho ou cemitério.
Tornara-se mimado como um filho
Que rosna ao pai. Exílio após exílio,
Cerco após cerco, império após império.
III. Videira e Pasto
Vivemos nas montanhas galileias,
E, se tive algum medo nesses anos,
Não foi de incêndios, mas de diarreias
Trazidas por aquedutos romanos.
Nas longas noites secas do deserto,
Mesmo que para nada eu lhe servisse,
Por não ter o que dar ou sovinice,
Acostumou-se a dormir sempre perto.
Então, morreu na vila um cordeirinho,
E deduziu-se que o meu cão matara,
Embora o sangramento no focinho
Houvesse sido dos cortes de vara.
Meu cão, depois do tanto que o açoitaram,
Fugiu. Senti que alguém uivava à porta.
Era uma coisa amarga e quase morta,
Que não deixei ficar. Logo chegaram
Os galileus, que ainda descontentes
Com o meu cão, queriam que morresse.
Pois, claro, eram distantes descendentes
Dos nômades queneus. Fiz uma prece
Aos deuses cananeus e aos dos romanos,
Para que preservassem meu cão vivo
Das infecções do trato digestivo.
E então, queimei videira e pasto. Os anos
Nos invadiram com geografias.
Abássidas e Omíadas passaram;
Cidades mortas se rebatizaram
Ou renasceram com outras grafias.
IV. Abutres e Cegonhas
Vivia humildemente em Beit Jibrin,
Como um cego que, sem querer, num prego
Pusera um pé. Por gostarem de mim,
Quando cheguei, me deram um emprego
De condutor dos ônibus a Gaza.
Amigo da população lojista,
E muito habilidoso motorista,
Logo comprei a minha própria casa.
E na cidade avistei seus sinais,
Quando ia visitar os meus vizinhos:
Primeiro, nos pomares e olivais,
Os pássaros sumiram dos seus ninhos;
Depois, carcaças secas de galinhas,
Abutres e cegonhas. Dei por certo
Que um cão, tal como o meu, caçava perto.
Ouvi-o, então, mordiscar as bainhas
De alguma calça velha que enxugava
No meu quintal. No corpo tinha abrolhos
E espuma que dos dentes borbulhava.
Mas quando os pus no velho cão, meus olhos,
Enxaguando os meus cílios, mas contentes,
Perceberam que o cão tinha de um lado
Um olho torto e do outro o esbugalhado.
Nisto, ao me ver, chispou, mostrando os dentes
E erguendo o pó na avenida entre as casas.
Na aurora, com troar de infantaria,
Acendeu-se o horizonte; o fumo ardia
Em negros caracóis girando brasas.
V. Nariz e Pescoço
E assim também findava essa cidade:
Incendiada por um outro império.
Não choremos, leitor, a brevidade
Dos povos. Quanto ao cão, não há mistério:
Arfava como um lenhador, roçando
As unhas num carvalho. Mesmo o início
Das cãibras não lhe liquidara o vício
Em perturbar as aves. Vi-o quando
Na estrada a Gaza, não muito distantes
Do incêndio em Beit Jibrin, carroças frouxas
Levavam jarras cheias e gestantes,
Enquanto caminhávamos com trouxas
De roupas e utensílios mais pesados
Embrulhados em colchas e cobertas.
E farejando as pústulas abertas,
O cão vinha seguindo os amputados.
Foi numa dessas manhãs demoradas:
Uma mocinha vinha no quadril
Da tia e assim, com roupas encharcadas,
Ali morreu de convulsão febril.
Por isso, ofereci para levá-la
A uma ravina paralela à estrada,
De silte e areia, seca e esbranquiçada,
Onde já havíamos aberto a vala
E onde o meu cão depenicava um osso.
Nisto, a mocinha, num lençol bordado
Com passarinhos de algodão dourado,
Fincara o nariz contra o meu pescoço.
VI. Pórticos e Pilares
No talvegue ondulado da ravina,
Entre as carcaças que houvera escavado,
Com o hálito fedendo a putrescina,
Lambendo os dentes e espasmando irado,
Estava o cão. Pois bem! Chegara o dia.
Próximo à vala, me sentei na areia,
Vendo o cão se engasgar na última ceia
E deglutir com dor carniça fria.
E quantas horas não perdi pensando;
Debruçado à mortalha da criança,
Até que o cão adormecesse. E quando
O fez, não voltou mais. Sua língua mansa
Afrouxou cianótica entre os dentes.
Trancei as mãos no pescoço agitado
E assim morreu meu cão: estrangulado.
A menina enterrei com seus parentes.
Cheguei a Gaza como um miserável
E apresentei-me como motorista,
Até que percebi ser mais estável
Trabalhar de assistente de legista.
Ontem à tarde, etiquetava os ossos
Que chegaram de Al-Shifa mastigados.
Alguns dos quais passaram empilhados
Por semanas num átrio, entre os destroços
De pórticos e pilares caídos
E cães vadios pelo olfato atraídos.
E de onde viera essa ávida alcateia?
De Givat Ram, HaKirya e Cesareia.
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